Seguindo para o Inferno: O Relato Real da Minha Primeira Missão — Parte 1

A Viagem para o Campo









Nota do Operador: Relato real baseado em experiência própria. Nomes de pessoas, cidades e informações operacionais sensíveis foram omitidos por razões de segurança. Este conteúdo é um registro histórico pessoal — não romantiza nem incentiva a participação em conflitos armados.




   No artigo anterior falei sobre o fim do bootcamp, os laços construídos e o episódio que até hoje arranca gargalhadas de quem estava lá.

Mas hoje o tom muda.

Hoje começa o relato que eu prometia desde o início — a minha primeira missão real pela Legião Internacional do GUR. Dividi em duas partes porque o que aconteceu não cabe em um único artigo.

"Treino é treino. Jogo é jogo".

   Você está prestes a entender o peso real dessa frase.

650km Rumo à Zona de Operações

   Com o bootcamp encerrado, arrumamos nossas coisas para uma viagem de 650km até a cidade onde iríamos operar. Os recrutas em um transporte, os auxiliares e responsáveis em outro.
   Era praticamente novembro de 2025. O frio já começava a chegar no Leste Europeu — aquele frio que vai entrando devagar e um dia você acorda e ele simplesmente tomou conta de tudo.
A viagem foi longa e cansativa. Pequenas paradas, pouca conversa, cada um dentro dos próprios pensamentos.








A Base e os Colombianos

   Ao chegar na cidade — já na zona de batalha — encontramos uma equipe de colombianos que havia chegado antes de nós.
   Eram 6. Operavam sempre em duplas, realizando trabalhos de limpeza e ganho de terreno de forma sistemática. Em pouco tempo já haviam estabelecido uma base sólida e um checkpoint estratégico na área.
   Eram meus companheiros de bootcamp. Nos formamos juntos. E eram simplesmente excepcionais.
   Quando chegamos, nosso trabalho era dar continuidade ao que eles haviam construído — avançar, ganhar o máximo de terreno possível e substituir a equipe que já estava exausta.
   Era a ideia. A realidade seria diferente.



Os 10 Soldados e uma Decisão Difícil

 
  Cinco dias após chegarmos à base designada — a casa segura — veio a primeira reunião de missão.
   O comandante dos brasileiros ofereceu 10 soldados para a operação. Escolhemos os 10, dividimos em equipe Alfa e Bravo. Eu seria o TL — Team Leader — da equipe que iria na frente. Minha missão inicial era estabelecer o ponto avançado e iniciar a limpeza de uma das ruas na zona de batalha.
   Nos dias que antecederam a missão fomos ao campo — zerar miras, passar instruções, observar os rapazes operando.
   Foi aí que a preocupação bateu forte.
   Eles estavam nervosos. Com medo. E mais do que isso — não estavam prontos para a função que assumiriam. A função de assault — avanço terrestre e ganho de posição — exige um nível de preparo que eles simplesmente ainda não tinham consolidado.
Chamei os comandantes. Fui direto.


"Olha, eles não estão prontos. Não têm as habilidades para esse tipo de trabalho. Precisam de mais tempo."


A resposta foi igualmente direta.


"Drax, não podemos dar para trás. Já foram oferecidos os 10 homens. O serviço precisa ser feito. A equipe que está na posição está exausta e precisa ser substituída."


Tentei argumentar. Foi em vão.
A missão seguiria.


A Notícia Mais Triste


   Enquanto nos preparávamos, chegou uma notícia que parou tudo.
"Infiernal" havia morrido.
   Meu amigo colombiano — um dos que se formou comigo no bootcamp, um dos que havia estabelecido a base onde estávamos — havia caído numa missão de assault.
   Foi um choque.
   Infiernal era destemido. Veio à Ucrânia com sede de trabalho e vontade de fazer diferença. Um dos melhores operadores que conheci nessa jornada. Saber da morte dele foi como levar um soco no peito sem aviso.
   Foi quando a ficha caiu de verdade.
   É de verdade.
   Num conflito como esse, quando se perde um irmão de farda, o peso é diferente para cada um. Alguns parecem não se abalar. Outros sentem mais. Mas todos — sem exceção — cedo ou tarde sentem o peso desse ambiente de uma forma que não existe palavras para descrever direito.







A Missão Muda em Cima da Hora


   Com a morte de Infiernal, a missão foi completamente reformulada.
   Nosso objetivo agora era ir até o bunker onde estava o corpo dele e trazê-lo de volta. O problema — ainda havia dois inimigos naquele bunker.
   Em cima da hora minha função mudou. Saí da posição de assault e assumi a posição de comunicações — Comns. Meu trabalho seria guiar estrategicamente os operadores no campo, não avançar na linha de frente.
   Em vez de ir com 6, fui com 5 para a área de checkpoint.


Partindo na Madrugada

 
  Chegou o momento.
   Partimos na madrugada. Estava frio — mas o medo impedia de sentir o frio direito. Levamos tudo que achamos que precisaríamos. Comida, roupa quente, equipamentos básicos para aquele momento.
   Eu fui com uma roupa diferente dos camaradas.
   Foi a pior escolha que fiz naquele dia. No próximo artigo você vai entender por quê.
Fomos até o ponto de extração, subimos no             blindado e a missão começou.
   Seguindo para o inferno.
   Primeira missão é sempre assim — mesmo com todo o planejamento, você nunca sabe o que vai encontrar. Tudo tremia. O carro. O meu corpo. Não era o motor — era o medo negociando com a minha mente.
   Quando chegamos ao ponto de desembarque, tudo ficou rápido e dinâmico. Encontrei alguns dos colombianos que se formaram comigo — eles nos receberam e guiaram até o bunker seguro no campo de batalha.
   E então a realidade bateu pela primeira vez de verdade.
   Senti o estrondo de um morteiro. Não o de treinamento — o real. Aquele que faz os prédios tremerem, que levanta poeira das ruínas, que ressoa no peito de um jeito que nenhum vídeo consegue reproduzir.
   Ruas destruídas. Prédios em colapso. O cheiro específico de tudo que uma guerra deixa para trás.
   Surreal.
   Mas o medo foi sendo substituído por algo mais útil. O raciocínio voltou. Mente e corpo negociaram e chegaram num acordo. Atravessamos de um prédio para o outro e chegamos ao bunker com segurança.


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No próximo artigo continuo esse relato — o que aconteceu dentro do campo de batalha e por que aquela escolha de roupa quase me custou caro. Um registro que mudou a minha vida de uma vez por todas.





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— Bruno Fraga | Gestão & Tática


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